Parada do Orgulho Macumbeiro marca momento histórico dos Povos de Axé em São Paulo.
- FEDERAÇÃO ATUCO

- Jun 10
- 3 min read
A cidade de São Paulo foi palco, no dia 31 de maio de 2026, de um acontecimento histórico para os povos de terreiro e para as tradições de matriz africana: a realização da 1ª edição da Parada do Orgulho Macumbeiro, uma mobilização cultural, social e política que reuniu centenas de pessoas em defesa da liberdade religiosa, do respeito às tradições afro-brasileiras e do combate ao racismo religioso.
Idealizada e coordenada por Mãe Su de Nanã, importante liderança religiosa, mulher preta, nordestina e referência na luta pela valorização dos povos de Axé, a iniciativa nasceu do compromisso com a visibilidade, o reconhecimento e a garantia de direitos para as comunidades tradicionais de matriz africana.

A realização da Parada no mês de maio possui profundo significado histórico. O período remete à assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, marco que extinguiu oficialmente a escravidão no Brasil, mas que não garantiu reparação social, econômica ou territorial à população negra. Os efeitos dessa ausência de reparação ainda podem ser observados nas desigualdades sociais, na violência estrutural, no racismo e na
intolerância religiosa que atinge milhares de brasileiros. Nesse contexto, a Parada do Orgulho Macumbeiro surge como um espaço de afirmação da identidade afro-religiosa, de preservação da memória ancestral e de fortalecimento da luta por igualdade e respeito. Mais do que uma manifestação religiosa, o evento representa um ato público de valorização da cultura afro-brasileira e de enfrentamento às diversas formas de discriminação que ainda afetam os povos de terreiro.
A escolha do termo "macumbeiro" também possui um significado importante. Durante décadas utilizado de forma pejorativa para ofender praticantes das religiões de matriz africana, o termo foi ressignificado pelos participantes como símbolo de pertencimento, resistência, ancestralidade e orgulho de sua fé.
A organização da primeira edição contou ainda com a participação de *Isabela Cardoso (Bella Oyá), Isabela Alves (Afrobela) e Nanda Omiakesi, responsáveis pela articulação política, mobilização comunitária e construção coletiva da iniciativa.

A concentração aconteceu nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, local emblemático da história da cidade, seguindo em caminhada pelas ruas do centro até a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. O trajeto foi escolhido por seu simbolismo histórico, conectando espaços que representam diferentes momentos da formação social e cultural paulistana.
Enquanto o Theatro Municipal tornou-se um dos principais símbolos do processo de modernização da cidade no início do século XX, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos permanece como um importante patrimônio da resistência e da memória da população negra paulistana, preservando tradições, histórias e manifestações de fé ao longo dos séculos.
A primeira edição reuniu aproximadamente 800 participantes, entre lideranças religiosas, sacerdotes, sacerdotisas, médiuns, simpatizantes, pesquisadores, coletivos culturais, organizações sociais e representantes do movimento negro.

A mobilização contou com a participação de diversos terreiros, casas religiosas, coletivos e instituições, entre eles o Movimento Nossa Cara Preta, Ilê Axé Alaketu Oyá Oni Lewá, Observatório de Violência Contra as Mulheres CAAF/UNIFESP, Espaço Espiritualista Pai Antônio das Almas, Casa Espiritual Zé Curisco, Yabás – Saber e Cura, TUJMO Osasco, Casa de Caridade Cacique Pena Branca e Vovó Catarina do Congo, Casa de Catimbó Jurema Sagrada Zé Pelintra e Maria Luziara, Instituto de Estudos Espiritualistas, Cantinho de Orações Caminhos de Aruanda, Templo Iansã Guerreira, Caboclo Lírio Verde e Vovó Maria Conga, além de diversos grupos de curimba e coletivos culturais.
Também estiveram presentes organizações ligadas ao movimento negro e aos povos de Axé, como o Emancipa Axé e a Soweto Organização Negra, além do apoio institucional de representantes do poder público comprometidos com a defesa da liberdade religiosa e dos direitos humanos.

A Federação ATUCO reconhece a importância de iniciativas como a Parada do Orgulho Macumbeiro para o fortalecimento da democracia, da diversidade religiosa e da valorização das tradições afro-brasileiras. Eventos como este contribuem para ampliar o diálogo com a sociedade, combater preconceitos históricos e reafirmar o direito constitucional à liberdade de crença e de manifestação religiosa.
Construída de forma coletiva, a Parada do Orgulho Macumbeiro consolida-se como um importante marco na luta contra o racismo religioso e na promoção do respeito às tradições ancestrais que compõem a riqueza cultural e espiritual do Brasil.
Redação - Federação Atuco - www.federacaoatuco.com.br
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